Fragilidades económicas da China abrem espaço para maior pressão da UE
Um relatório do Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança defende que as fragilidades económicas da China podem abrir espaço para uma estratégia europeia mais assertiva, baseada na redução de riscos e uso da influência económica do bloco.
O estudo, intitulado "China -- Uma potência frágil? Como a Europa pode usar a sua influência económica sobre Pequim", defende que a política externa chinesa é cada vez mais moldada não apenas pela força económica e tecnológica do país, mas também por vulnerabilidades internas.
Segundo os autores, a China enfrenta uma combinação de desafios estruturais, incluindo o envelhecimento acelerado da população, a queda do retorno dos investimentos, o elevado nível de dívida e a persistente crise no setor imobiliário.
"O crescimento económico da China deverá abrandar consideravelmente nas próximas décadas", refere o documento, acrescentando que as projeções apontam para uma expansão inferior a 2,5% antes de 2035.
Os autores destacam que essas fragilidades poderão limitar os recursos disponíveis para a projeção internacional de poder e aumentar a pressão interna sobre o Partido Comunista Chinês.
Segundo o Instituto da União Europeia para Estudos de Segurança, perante essas dificuldades, as autoridades chinesas poderão reforçar o controlo político e económico e intensificar a aposta na autossuficiência tecnológica. "A liderança chinesa poderá dar cada vez mais prioridade à segurança e ao controlo em detrimento da eficiência económica", indica o documento.
O estudo considera também que a desaceleração económica poderá levar Pequim a adotar uma postura externa mais assertiva, recorrendo ao nacionalismo para consolidar o apoio interno.
"As pressões internas podem levar Pequim a adotar uma política externa mais confrontacional", alertam os autores, que referem o risco de tensões acrescidas em áreas como o estreito de Taiwan ou o mar do Sul da China.
O `think tank` europeu aponta que a fraqueza da procura interna poderá agravar problemas de sobrecapacidade industrial, incentivando empresas chinesas a exportar produtos a preços baixos para mercados externos.
"A sobrecapacidade industrial na China poderá intensificar a pressão competitiva sobre as indústrias europeias", refere o documento, sublinhando que essa dinâmica já tem impacto em setores como veículos elétricos, energia solar e baterias.
Apesar dessas fragilidades, o estudo sublinha que a China continua a dispor de instrumentos significativos de influência global, incluindo a sua posição dominante em cadeias de abastecimento estratégicas e o peso da sua base industrial.
"A China mantém uma influência significativa devido ao seu papel central nas cadeias de abastecimento globais", realça.
Os autores defendem que a UE deve adotar uma estratégia que combine políticas de "redução de riscos" com um uso mais ativo da sua influência económica nas relações com Pequim.
Segundo o documento, a UE continua a representar um mercado fundamental para a economia chinesa, especialmente em setores de maior valor acrescentado.
"A Europa continua a ser um mercado de exportação crucial para os fabricantes chineses", refere o estudo, acrescentando que o acesso ao mercado europeu constitui uma das principais alavancas de influência do bloco.
O relatório recomenda que a UE preserve essa vantagem estratégica enquanto ainda existe, diversificando cadeias de abastecimento, reforçando a coordenação com parceiros internacionais e condicionando o acesso ao mercado europeu em setores sensíveis.
Para os autores, uma estratégia europeia mais assertiva permitiria defender melhor os interesses do bloco e estabelecer uma base mais equilibrada para as relações com Pequim num contexto de crescente rivalidade geopolítica.
"A Europa deve utilizar a sua influência económica enquanto ainda a possui", aponta o estudo.